Conteúdo exclusivo! Esta é uma postagem da área de membros do blog Ciência Low-Carb, que está temporariamente aberta para todos até o dia 18/02/2026. Aproveite para ler e compartilhar até lá. Reprodução proibida.
ATENÇÃO: há uma postagem atualizada sobre o assunto publicada em 14/02/2026 – clique aqui
Você já ouviu falar em Lipedema?
Lipedema é uma condição que afeta quase exclusivamente mulheres, pouco conhecida dos médicos e mais comum do que se imagina. Caracteriza-se por acúmulo de gordura nos membros inferiores, de forma simétrica, e desproporcional, ou seja – não é uma manifestação de obesidade (embora possa coexistir com obesidade e ser agravada por ela). É diferente do linfedema, por exemplo, que pode ser unilateral e, mesmo quando é bilateral, se caracteriza por acúmulo de líquido no subcutâneo. No lipedema as pernas tendem a perder o contorno, e a gordura se acumula em locais atípicos, como a região lateral dos joelhos e os tornozelos mas – importante – poupando os pés (no LINFEDEMA, os pés incham). Muitas vezes as pessoas descrevem as pernas como “troncos”, isto é, grossas de cima a baixo. Outra característica do lipedema é a fragilidade capilar. Em geral, são pessoas que desenvolvem manchas roxas nos membros inferiores por qualquer coisa – é comum que nem se lembrem do que causou a equimose/hematoma. Por fim, o lipedema pode ser doloroso ao toque e à pressão. Para exemplificar, a foto abaixo mostra o lipedema com sua típica gordura no tornozelo – e pés magros:

Um recente artigo no agregador de notícias médicas Medscape abordou o assunto, o que é ótimo, pois trata-se de publicação de grande alcance:

Destaco a seguir alguns pontos:
- Afeta cerca de 10% das mulheres – não é algo raro, e sim pouco diagnosticado
- A causa é desconhecida, e muitas vezes é confundido com obesidade, mas afeta desproporcionalmente os membros, quase sempre os inferiores, mas pode afetar os superiores também. Há forte componente genético;
- Dizem os autores: “Embora não se conheçam os verdadeiros desencadeadores dessa alteração, o estilo de vida tem um papel muito importante no controle dos sintomas. Por isso, é muito importante seguir uma dieta anti-inflamatória. Por outro lado, ainda que não sejam causas, o sedentarismo ou a falta de uma alimentação balanceada podem ser fatores que agravam a situação” (sobre alimentação falaremos mais, abaixo);
- Tratamento pode incluir cirurgia para remoção de acúmulos localizados de gordura e terapias conservadoras como drenagem linfática, outros tratamentos tópicos e estilo de vida (dieta e atividade física);
- Dizem os autores: “Como a insulina promove a lipogênese, uma dieta que evite os picos glicêmicos e de insulina pode ser desejável. Por outro lado, a resistência à insulina piora a formação de edema”. Logo após essa interessante constatação, sugerem uma dieta mediterrânea…🤦♂️
Veja, uma dieta mediterrânea é certamente melhor do que pizza com refrigerante normal ou batata frita com ketchup, mas se o objetivo é reduzir insulina e picos glicêmicos, A DIETA A SER PROPOSTA DEVERIA SER LOW-CARB, não é óbvio?
Mas ser óbvio não basta. O que diz a literatura sobre low-carb e lipedema? Um estudo piloto foi publicado por um grupo da Noruega em 2021:

Neste estudo pequeno, 9 mulheres com lipedema foram submetidas a uma dieta low-carb cetogênica pot 7 semanas, seguida por mais 7 semanas de dieta tradicional das diretrizes nórdicas. Houve perda de peso média de 4,6 Kg apenas nas semanas low-carb. Houve ainda uma pequena redução da circunferência das panturrilhas (mas não das coxas) – novamente apenas no período low-carb. A DOR teve melhora considerável somente durante o período low-carb, recidivando com a dieta padrão nórdica. Os autores comentam que, ao que tudo indica, a DOR tenha melhorado pela dieta low-carb cetogênica em si, pois a dor voltou com a cessação da low-carb, embora o peso não tenha voltado nas 7 semanas de dieta nórdica. Especulam também que isso possa ter a ver com conhecido efeito anti-inflamatório da dieta cetogênica, visto que é sabido que existe um componente inflamatório na gordura do lipedema.
Mas um estudo piloto não-randomizado com 9 pessoas não é exatamente evidência científica – serve apenas para levantar hipóteses e reforçar que as melhoras que se vê em consultório podem ser mais do que meras coincidências. Eis que foi publicado um ensaio clínico randomizado testando low-carb em lipedema:

Este estudo polonês recrutou 91 mulheres com lipedema que foram randomizadas para 2 grupos: um grupo low-carb high-fat (LCHF) e outro médio-carb médio-fat (vou chamar aqui de dieta “equilibrada”) por 16 semanas. As dietas tinham a mesma quantidade de proteína – diferiam apenas na quantidade de carboidratos e de gordura.
Nas palavras dos autores: “A dieta LCHF (low-carb) foi mais eficaz que a equilibrada na redução do peso corporal, gordura corporal e circunferências dos membros inferiores”. Quando olhamos os resultados, chama a atenção que o grupo low-carb emagreceu muito mais (8 kg, contra apenas 2 kg do grupo de dieta equilibrada). Não que isso seja um problema, até porque a maioria das pacientes era obesa ou tinha sobrepeso. Mas alguém poderia alegar que as pessoas melhoraram apenas porque emagreceram. Para resolver essa dúvida, seria necessário conduzir um novo ensaio clínico randomizado no qual as calorias fossem mantidas iguais entre os dois grupos (fazendo o grupo low-carb comer mais do que deseja e deixando o grupo equilibrado com fome) de modo que o efeito da LCHF possa ser avaliado independentemente de seu efeito no emagrecimento. Por outro lado, para quem sofre de lipedema, essa é uma discussão de interesse apenas acadêmico, pois o que importa é saber que existe uma alternativa que pode trazer alívio para uma condição para a qual ainda não existe uma cura. Interessante salientar que, assim como no estudo piloto citado mais acima, neste ensaio clínico randomizado a dor melhorou apenas no grupo low-carb. Os autores concluem “Pela primeira vez, a dieta com baixo teor de carboidratos e alto teor de gordura foi mais eficaz em pacientes com lipedema em comparação com a dieta de baixo índice glicêmico (“equilibrada”). A redução da gordura corporal dos membros induzida por uma dieta pobre em carboidratos pode ser fundamental para aliviar os sintomas da doença e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Os resultados deste estudo podem ser cruciais na implementação do manejo nutricional em pacientes com lipedema.”
É importante temperar o entusiasmo com os resultados favoráveis de low-carb para lipedema com a realidade de que as pessoas não saem desses estudos com pernas finas. O lipedema segue sendo uma patologia de difícil manejo, na qual comemoramos as eventuais melhoras e a profilaxia da piora. E a dieta, embora seja importante, é apenas parte do tratamento, que pode incluir desde técnicas de drenagem linfática mecânica até cirurgia plástica.
A carne…
Muitos de vocês já devem ter ouvido que, no manejo do lipedema, é necessário reduzir carne vermelha. Neste momento, gostaria que você pausasse e escutasse o seguinte episódio do podcast Comida sem Filtro – Clique aqui.
Escutou? Ok – acontece que as pessoas têm uma TARA por essa ideia. E isso acaba contaminando o próprio desenho dos estudos científicos! O ensaio clínico randomizado sobre o qual falamos acima – o das 91 mulheres – restringiu carne vermelha NOS DOIS grupos (parabéns aos autores – isso não permite saber se a carne faz diferença ou não🤦♂️). O grupo low-carb high-fat foi melhor, e tenho certeza que teria sido igualmente eficiente – e muito mais saboroso – se a carne vermelha tivesse sido liberada. Aliás, é interessante citar aqui que no estudo piloto (o dos 9 pacientes) no qual as pessoas melhoraram somente no grupo low-carb, a carne foi reduzida apenas no grupo que não deu certo – o da dieta nórdica saudável. Dai-me paciência, Senhor.
Perfeito Dr. Souto.
Obrigada pelas informações e conhecimento claro sobre esse assunto pouco falado.
Com certeza é um assunto que merece ser mais conhecido; obrigado Viviane 🙂
Espetacular, como sempre!
Parabéns Dr Souto pela iniciativa dessa área de membros!
Já tem o meu apoio
Obrigado!
É muito provável que eu tenha essa condiçao, faço low-carb há 3 anos, também há 3 anos faço crossfit (4x por semana + 2x caminhada de uns 45′). Melhorou, mas nao curou. Tenho um corpo todo definido, normal, magro, com acúmulo de gordura apenas nas coxas/culote. É muito incômodo porque é como se houvesse uma peça que nao encaixa no resto do corpo. Ultimamente tenho também feito duchas de água gelada nas pernas umas 3 x por semana (estamos no inverno temperaturas entre 2-18 graus), uns 2 minutos em cada uma. Drenagem faz tempo que nao faço agora. Tento ter uma estratégia estável no tempo, preferível do que intensa por um periodo de tempo. Mas às vezes desanima, porque o esforço é muito grande e realmente nao cura. O único que faltaria ainda para abandonar da alimentaçao seria o vinho. Nao sei se é um fator de piora do lipeddema. Obrigada Dr Souto, pela qualidade da info.
Marcela, entendo bem sua frustração, pois também passo por isso. No passado, já fiz até lipoaspiração, mas o que ajudou mesmo a controlar e melhorar o aspecto foi a low carb. Sigo em busca de tratamentos, e também tentando aceitar que jamais terei pernas finas. O jeito é fazermos o melhor dentro do que está ao nosso alcance.
Obrigado pelo comentário, Sari ;-*
É isso aí Sari ; ), é o que tem pra hoje. O importante pra mim foi a mudança de concepçao entre estratégias duráveis e sustentáveis no tempo e correr para conseguir resultados já, o que apenas gera frustraçao porque nao é sustentável. A alimentaçao low-carb é muito legal porque você elimina produtos que nao te fazem bem, e pronto. É uma opçao por saúde e nao apenas por estética como é a proposta de outras dietas.
Super me identifiquei!!!
As minhas centralizam na coxa e no culote
Muito bom saber que não estou sozinha. Já magoei muito uma amiga, pq fomos viajar juntas e eu não tive coragem de colocar biquíni e me divertir c ela. Tb faço lowcarb e atividade física 6x na semana, mas elas não somem… apenas melhoram. Busco todas as informações a respeito, pq realmente atrapalha minha vida, apesar de tanto esforço. MUITO obrigada por levar o assunto à tona.
Uma vez li no blog que emagrecer bastante (secar) poderia eliminar aquela gordura localizada difícil de perder, isso também serve para a gordura do lipedema?
Infelizmente a gordura do lipedema parece resistir ao emagrecimento. O que estes estudos sugerem é que o uma dieta cetogênica reduz mais o lipedema do que uma dieta não-cetogênica.
Obrigada Dr. Souto! Riquíssimas informações
Obrigada Dr, era tudo que eu mais queria ver alguém em quem confio muito falando sobre o assunto.
Sou personal Trainer sempre fiz dieta treino há pelo menos 25 anos e nunca obtive resultados em membros inferiores,emagreço só da cintura pra cima ,mesmo quando cheguei nos 14% de gordura,minha perna não mudou em nada.
Parece que tenho 2 corpos da cintura para baixo não consigo definir.
E é bem assim né? Imagina, 14% de gordura é SECA. Entender que esse diagnóstico existe não deixa de ser um certo alívio – ao menos as coisas fazem sentido, né?
Muito obrigada !
Conheci você pela Lara , já li seu blog praticamente inteiro ,adoro seu trabalho.
Pra mim esse assunto é muito novo ,venho lendo tudo que posso para ajudar também minhas alunas.
Infelizmente não encontrei muitos artigos que falem sobre o treino de musculação .para as pessoas portadoras dessa doença.
Não cério que a musculação em si vá reduzir lipedema, mas mais massa magra significa mais saúde metabólica. Nesse sentido, poderia em tese até reduzir inflamação, não é mesmo?
Sinto vergonha por quantas mulheres atendi no passado, se queixando de inchaço e dor nas pernas, e nunca sequer cogitei (nem ao menos conhecia) esse diagnóstico.
William, bem-vindo ao clube! Eu também não conhecia e nem tinha ouvido falar até 1 ano atrás. E poderia dizer o mesmo sobre low-carb, até 2011. Não nascemos sabendo, o importante é ter vontade e abertura para aprendermos sempre 🙂